Volume Dois
Era assim, dia após dia ela se desfazia naquilo que ela não sabia explicar.Pensava na vida como um episódio televisivo em que os personagens podem ensaiar ou repetir uma cena que não dera certo.E assim seus dias passam, e sua vida também.
Acordava tarde numa terça-feira no outro dia já era sexta, e não fazia nada.
Parecia como um vício de não querer mais reagir a nada, pensou por varias vezes em esperar a morte ali quietinha sem incomodar ninguém, e incomodar ao mesmo tempo.Seu corpo parecia definhar, seus seios pareciam mais flácidos seu rosto, envelhecido...mas ela não se importava queria ficar ali sentada a olhar a vida percorrer por ela como se não quisesse sentir nada.
Então era isso. Não queria sentir nada?Sentir o que já não se sente mais. Procurava no seu cotidiano artifícios para lidar com aquilo que se chamava vida. Queria se alegrar com qualquer coisa, o seu lema era “eu quero ser feliz e mais nada”tudo mera aparência, a vida não se dita por meio de uma frase,ainda mais como esta.
Acreditava no amor, claro que sim. Havia escutado num filme uma conceituação acerca do amor que permeou seus pensamentos por muito tempo: O amor é como um livro que há dois volumes , se um se perder, a coleção ficará incompleta e sem sentido algum.Não se recordava quem era o autor da frase mas acretidava cegamente naquilo.
O amor não ficou para todos. Com certeza não, nem todos nasceram com
esse privilégio. Igual ao de ser mãe, amiga, entre outros atributos. Mas pelo ao menos uma vez na vida todos deveriam ser amados. Não deveria ser tão ruim assim.
Mas assim mesmo ela pensava em coisas totalmente contrárias aquilo que acreditava no seu mais profundo interior.Via o sol indo e vindo mas nada acontecia.
Entretanto queria o “volume dois” de sua coleção mas não conseguia encontrá-lo.Será que talvez não houvesse mais reedições?Não sabia responder.
Diante de sua trajetória de vida ainda não sabia ao certo definir o amor.Se ele, o amor já havia passado por ela.Tinha certeza que não lembrava disso.Queria sentir.Lembrou-se de uma frase que não sabia ao certo de quem era, mas dizia o seguinte:”Prefiro sofrer do que não sentir nada.” Será?
Amar seria tão doloroso assim?E não amar seria tão vazio assim?Perguntava-se ali calada sentada diante do nada, nada em movimento, tudo parado, sem sentindo talvez para ela que procurava dar sentido aos fatos. Eram assim todos os dias.
Atendeu ao telefone naquela noite estranha que parecia não ter sentido em ser. Acabou indo. Aquilo em que acreditava não ser o melhor. Não o melhor para os outros, mas para ela em si. Viveu aquele momento como se tudo aquilo fosse verdadeiro.
Ao ser penetrada olhou fixamente para os olhos daquele homem que naquele instante não significava absolutamente nada para ela. Mas assim mesmo continuou. Os toques eram de uma artificialidade que nem mesmo conseguia se concentrar naquilo que havia se proposto a fazer. O beijo era o mais difícil pois acreditava na pureza daquele ato e ali naquele instante não havia nada de puro para se almejar,somente dois corpos em movimento e bruscamente vazios de qualquer sentimento.
Ele sentiu prazer, mas ela não. Ele talvez fosse um louco a procura de se satisfazer. Ela não. Ela queria mesmo ser amada,instigar no outro um sentimento bom.Mas não havia nada ali.Não falou nada.Olhou para ele. Estava dormindo, seu rosto transmitia satisfação. A lua iluminava seu corpo nu, ela a lua estava linda e a fez lembrar.E isso veio com uma força no seu pensamento que a deixou inerte por instantes!!!Pensou consigo. Parou, pensou de novo e sentiu naquele momento com os toques de outro homem que o seu “segundo volume” existia, sim ele existia,mas não para ela.
Sentiu uma felicidade nostálgica, o que adorava, mas quase não acontecia.Sempre ocorria quando viajava, em que olhava para a paisagem em movimento e lembrava da infância e sorria,um sorriso realmente feliz. Essa felicidade era devido saber que sentia algo. Mesmo que soubesse que não adiantaria sentir .
Apesar de ter descoberto esse sentimento nos braços de outro, o importante é que sentia, e sentia de verdade. Esse sentimento que veio com força naquele instante em que quase desistiu de tudo, mas se perdeu como se perde chaves,moedas,anéis.Ou seja, se perdeu sem perceber.
Havia o sentimento mais não havia a matéria, ou seja, não havia mais possibilidade de ser outra vez. Passou, e passou contudo que deixou marcas nos sentimentos dela.
Deitada para dormir pensou desolada e triste, porém feliz... Em saber que sentia mas não consumia esse amor.Fixou os olhos na lua, teve uma sensação,lembrou do toque do amado e pensou:O amor nasce para todos...mas nem todos nasceram para amar.O volume que procurava não havia mais possibilidade de ser rescrito... pois não há reedições, o amor não é assim.